A Edmond Rostand,
in memorian
(dos Contos Humorísticos, de Alma Welt)
Faço as malas para uma viagem ao Rio, afim de contratar uma exposição de meus quadros, combinar detalhes com o marchand, etc. Despeço-me do meu querido ateliê, lançando-lhe uma última vista d’olhos. Sempre me sinto um pouco estressada com qualquer viagem. Enraízo-me com muita facilidade na minha toca, e qualquer saída para mim é desraigamento. Logo estou na rodoviária, o paraíso do anódino, território do transitório, tanto quanto do passageiro.
Cumpridos os trâmites, de filas, compras de passagem, e espera, afinal estou dentro do confortável ônibus leito. Sento-me junto à janela como costumo, e preparo-me para dormir, reclinando totalmente a poltrona, quando um dos passageiros que continuam entrando, senta-se ao meu lado, laçando-me um olhar de ponta a ponta. Abri os olhos neste justo momento e percebi ter sido sorteada com um interessante companheiro de poltrona. Um tipo nitidamente intelectual, coisa raríssima em viagens desse tipo. Um homem maduro, de seus quarenta anos, de vasta cabeleira atirada para trás, óculos, e grande fronte, altíssima, mesmo desconsiderando as grandes entradas. Mas o nariz, enorme, esse era realmente especial, e me apaixonei por ele, quero dizer, pelo nariz!
Ele compenetrou-se, disfarçando, tentando olhar para frente. E mais pude estudar-lhe o perfil. Esse homem é um poeta, pensei, como eu... Porque pensei logo isso? Ante de ponderar, espontânea, ou irrefletida como sou, apontei o dedo para o seu nariz, e exclamei: poeta! Ele espantou-se, ficou perplexo, por um segundo, mas logo abriu o mais encantador sorriso que se poderia esperar, e disse.
—Não, não. Sou publicitário, quem me dera ser poeta! E você quem é? Uma musa a procura de um?
Não preciso nem dizer que adorei sua resposta, e devolvi-lhe o meu melhor sorriso. Entabulamos uma agradável conversação, no início, de surpresa em surpresa para ambos os lados. Não acertávamos uma! Ou então acertávamos todas. Pois tudo tinha uma similaridade, um paralelismo, como se fôssemos a paráfrase um do outro. Isso soava desconcertante, frustrante e auspicioso ao mesmo tempo. Sim, paradoxal, em resumo. Sei que estou cheia de adjetivos, mas isso caracteriza o começo da paixão. E estávamos exasperados, um com o outro, agradavelmente. A certa altura ele pediu-me para nos calarmos. E para segurar-me na mão em silêncio. Deixei, percebendo ser essa uma sábia solução. E permanecemos assim o resto da viagem. De mãos dadas e em silêncio. Adormecemos.
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Quando o ônibus parou na rodoviária do Rio, descemos naturalmente, sem nos beijar-nos, não era o caso. Pegamos nossa malas e trocamos os nomes e endereços dos nossos hotéis, era o mínimo que podíamos fazer, depois de tanta intimidade! Poderíamos ao menos pegar o mesmo táxi já que iríamos ambos para a zona sul, mas despedimo-nos ali mesmo, tranqüilizados por termos trocado os nossos endereços. Sempre poderíamos começar de novo. E acertaríamos o passo.
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Estou neste hotel há dois dias, já fiz tudo o que precisava, estive várias vezes na galeria, almocei e jantei com o meu marchand, e com a sua secretária, que não deixam de ser pessoas interessantes. No entanto, não paro de pensar em Aloízio, o poeta, digo, publicitário, do ônibus. Eu já teria que ter voltado a São Paulo, mas estou fazendo cera, dando tempo para que ele decida me procurar, aqui neste hotel, porque eu não irei até ele. Isso já seria demais! Esse homem segurou minha mão por horas, e não sabe o que isso significa para uma mulher. Eqüivale a, no mínimo, uma hora de sexo explícito.
Esse homem apareceu para me frustrar? Oh! Apareça, quero rever esse teu nariz monumental. Essa tua cara de poeta inédito, destinado à fama imorredoura, não importa que não tenhas escrito um único verso. Publicitário!
Bem podes ter feito poesia sem o saber. “O primeiro sutiã...” Depois, o que importa, é a linha peculiar do teu nariz, e o seu tamanho, no limite perigoso da obra de arte. Oh! Aloízio, meu ex quase futuro amor...que invadiste a minha mão, em horas de sono, num ônibus!
O telefone toca, afinal, corro a atender, mas com receio de ser mais uma vez o meu velho marchand. É ele! Aloízio, afinal, esperando-me na portaria.
Arrumo-me rapidamente, passando uma escova relâmpago no cabelo, e desço tentando acalmar no elevador a minha excitação, pois quando a porta se abrir, quero ser uma deusa. Serena e plácida, monumental, digna do...nariz de Aloízio.
Ele me espera de pé no saguão olhando uma gravura, uma litografia, se não me engano, do Guilherme de Faria, que representa uma mulher de costas, parecida comigo (sempre achei). Ele se volta, me encara, e sem um sorriso, me agarra pelos ombros e... beija-me na boca, com paixão Este homem é sem dúvida original (pensei imediatamente), sempre me surpreende. Não consigo prever-lhe o mínimo gesto! Em seguida, vendo que eu não me desfizera da chave no balcão, pegou-a e à minha mão novamente, e conduziu-me de volta ao elevador. Subimos em silêncio, enquanto eu pensava: “Porque não me beija novamente aqui, no elevador, já que estamos sós ?”, até que vi a câmera. “Este homem sabe o que faz...”, tranqülizei-me.
Afinal no quarto, ele começou a exercer toda a sua virilidade, mandando-me tirar a roupa imediatamente, quase com voz de comando. Não precisava tanto. Eu já estou nua para ti, faz tempo, meu poeta e nariz ideal!
Deitei-me, e abri as pernas, lentamente, esforçando-me para manter o rosto impassível, para não parecer vulgar. Sempre achei que, isso, de vulgaridade, é uma questão de expressão facial, pelo ao menos à primeira vista, já que os olhos e a boca, instrumentos dessa expressão, são a janela e a porta da alma. E o nariz, o frontispício, às vezes a aldrava.
E fui, afinal invadida, de uma maneira maravilhosa! E beijada, como nunca. Aloízio era um mestre, devia ser realmente um poeta. Colocou-me amavelmente em todas as posições, algumas francamente acrobáticas, sem desconjuntar-me, percebendo os limites do meu contorcionismo natural. Um homem sensível!
Depois disso, de tanto savoir-faire, fi-lo prometer-me que nunca faria versos.
quarta-feira, 26 de março de 2008
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