domingo, 17 de fevereiro de 2008

O casamento não sonhado da Alma (de Alma Welt)





Estou novamente apaixonada. Amo este homem jovem e belo que apareceu em minha vida e que parece compreender-me e aceitar-me como sou: uma artista independente, profissional, que pretende conservar-se assim para sempre. Todavia ele insiste em casamento. Digo-lhe sempre que não é preciso, que estamos tão bem assim, vivendo praticamente juntos, em meu ateliê, com a reserva de privacidade que as nossas vidas e profissões exigem. Tem dias que peço para ele não vir em certos horários enquanto estou pintando, porque se ele estiver aqui vou cair-lhe nos braços e vamos direto para a cama, essa é que é a verdade. É difícil resistir-lhe e ele a mim. E aí não vai ter pintura, não vão sair quadros, exposições etc.... Mas ele explica que o casamento é uma decorrência natural do ponto de intimidade e felicidade em que estamos. Mas começo a perceber que a sua família, com quem ele mora, e que é tão importante para ele, é um instrumento de pressão. Pressinto-lhes as razões um pouco preconceituosas, afinal, é uma família burguesa, que não pode ver com muito bons olhos o seu “menino” ligado a uma artista que eles pensam boêmia ou até mesmo promíscua, a menos que ele a retire dessa vida nada “recomendável”.
Sua mãe parece simpatizar comigo, mas vive a me alertar que “o Veiga é uma fera”. Se ela soubesse o que a palavra “veiga” significa (homem vil, covarde)... É claro que estou brincando. Não tenho motivos para duvidar da ferocidade do seu marido, que ainda não vi, pois nunca está lá quando sou levada a visitá-los. Parece que ele vive mais no centro espírita que freqüenta do que em sua própria casa quando não está trabalhando. Thomas, esse é o nome do meu “noivo”, parece acreditar também nessa “braveza” do pai, pois confirmou isso diante de mim, na presença da mãe. Por um momento, tive até medo. Por que será que eles temem tanto o Veiga?
Bem, o tempo passou, e agora a pressão que vem daquela casa através do Thomas é tão grande, que vendo-o nervoso, começo a ceder. Por que não casar afinal? Como não acredito na instituição, tanto faz. Nenhum papel pode afetar a minha integridade de artista livre. Só o amor pode acorrentar-me, por vontade, penso eu. Sei que posso parecer um pouco ingênua, mas o meu senso de liberdade já se tornou conhecido nos meios onde me movimento. “Alma é rebelde”, dizem eles, “nada pode prendê-la, ela respira liberdade”, comentam.
Marcado o dia de falar com o Veiga, à hora combinada Thomas recebe-me agitado em sua casa, e depois de beijar-me intensa mas nervosamente, conduz-me até a sala de visitas, onde apresenta-me a “fera”.
Seu Veiga, um homem simpático, estava sentado ao lado de sua esposa, dona Maria. Percebi o receio de Thomas em apresentar-me e dar a notícia ao pai. Hesitante, Thomas afinal disse:
— Pai, esta é Alma, minha noiva. Queremos nos casar, e peço-lhe seu consentimento e... sua benção.
Thomas estava quase gaguejante, o que me causou uma má impressão.
Seu Veiga, sem nenhuma expressão no rosto, olhou o filho por alguns segundos de suspense e exclamou, virando-se para a mulher:
— Ótimo, não é Maria? Eles podem morar naquele apartamento da Praça X que acabamos de reformar, não é mesmo?”.
Quase soltei uma gargalhada, na verdade bastante aliviada.. O Veiga que era uma “fera” já tinha tudo preparado para livrar-se do filho, suspeitei, por uma fração de segundo.
Após um brinde rápido, seguido de um agradável almoço, despedi-me daquela família, beijei Thomas e voltei ao meu ateliê.
Thomas faz questão de casar-se no religioso. Isso me incomoda. Depois de quase uma discussão, chegamos a um acordo. Aceito casar-me desde que não seja na igreja de véu e grinalda. Quero uma cerimônia simples, numa casa particular.
Minha boa tia ficou contentíssima com a notícia de meu casamento, puxou-me sobre a sua cadeira para beijar-me e abraçar-me. Deu imediatamente seu consentimento para usarmos sua casa como quiséssemos para a cerimônia e a festa.
Comunicado o seu Veiga, este contratou uma empresa e preparou o jardim da casa com grandes toldos, muitas flores por toda a parte e mesas e cadeiras para centenas de pessoas.
Eu comprara um vestido chique, mas simples, e um arranjo de cabeça que não era um véu, mas sim uma guirlanda de florzinhas miúdas, entretecida nos cabelos. Thomas apareceu com o tradicional terno escuro, colete cinza e gravata prateada. Formávamos um lindo casal, diziam todos.
Eu estava meio incomodada, algo me dizia baixinho que eu fizera muita concessão, que aquilo era uma farsa, que nada tinha a ver comigo, a pintora livre, moderna e nada afeita a tradições burguesas.
A casa encheu-se dos convidados. Senhores em seus ternos e senhoras enchapeladas. Os convidados do seu Veiga pareciam especialmente formais. Soube tratar-se dos membros do “Centro Espírita Padre Zabeu”. Um dos quartos, no andar superior, estava lotado de presentes. Louças e pratarias de toda espécie, a meu ver de péssimo gosto, e um faqueiro, meu Deus, pomposo, aparentemente de prata, numa grande caixa de madeira. Planejei botar aquilo tudo num leilão.
Na hora esperada, chegou o padre, à paisana, com uma estranha maleta negra e, pedindo um quarto à minha tia, subiu para vestir a batina e paramentar-se.
Desceu em seguida, já pronto e ainda com a maleta. Abriu-a no fundo do salão, na frente dos presentes, com uns gestos destros como um prestidigitador e, num passe de mágica, com um fantástico ruído: clá, clá, clá, clá... de dentro dela despejou-se um altar portátil de metal, que como num jogo de armar, maravilhosamente articulado, ficou instantaneamente erigido diante dos presentes que soltaram um “Ah!”, uníssono.
Não pude agüentar, soltei uma gargalhada, abafada pela mão de Thomas.
Após a cerimônia, que quase me comoveu, o presidente do Centro Espírita tomou a palavra e fez um longo discurso tão parnasiano, que me deu vontade de fazer xixi: cheio de laços, pombos, ninho de amor, Himeneu foi saudado devidamente, às raias do sono de Morfeu. Arre! Eu estava começando a ficar indignada com o Thomas. Terminada a oratória, corri para o banheiro.
Não me deterei mais sobre os detalhes deste casório. A lua de mel nos esperavva, depois de algumas taças de champagne.
Após um dia delicioso no nosso apartamento, sobre o qual não falarei por razões óbvias, chegou uma estranha entrega anunciada pelo interfone da portaria. Mandamos subir e, para minha surpresa, eram trinta caixas de champagne, que sobraram do suntuoso buffet encomendado por meu sogro.
Thomas mandou empilhá-las na cozinha e depois de uma gorjeta aos carregadores, fechou a porta e, para minha surpresa, abriu uma garrafa que espocou na cozinha e serviu duas taças. Fizemos um brinde ao nosso lar e à nossa felicidade. Eu estava encantada. Jamais poderia prever, naquele momento, o que se passaria daí para frente, mas vocês podem imaginar.
Em resumo, Thomas bebeu as trinta caixas em um mês. Acordava com a taça na mão, brindando ao sol e caía de noite, fora da cama, brindando à lua. No trigésimo dia, sem que eu lograsse tirar as garrafas de sua mão e mesmo da cozinha, Thomas entrou em coma alcóolico, foi levado às pressas ao hospital e enfartou na ambulância. Meu Thomas morreu em meus braços, exalando álcool por todos os poros. Eu estava confusa, magoada, enojada, perplexa e comovida, tudo ao mesmo tempo. Fui para casa antes do velório com uma estranha necessidade de comer bife de fígado. Eu me sentia represada, precisava vomitar, o que fiz durante três dias.
No velório fui a caráter. Vestida de preto com chapéu de rendinha negra sobre os olhos. Sua família olhava-me com ódio. Ouvi no ar, circulando, a expressão “viúva negra”. Resolvi comportar-me de acordo e assumi um ar sinistro meio teatral, mas nada disso aliviava o meu mal-estar. A atração intelectual que eu tinha pelo grotesco não me ajudava mais.
Deixei escapar um longo soluço na frente de todos os presentes.

12/08/2001

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