quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A Confraria dos Poetas do Soneto Triste (do livro publicado CONTOS DA ALMA de ALMA WELT)


Poeta triste- gravura em metal (ponta-seca) de 1962, de Guilherme de Faria.


( Conto humorístico de Alma Welt )

Recebo um telefonema, no mínimo curioso. Uma bela voz de homem, grave, apresentou-se como admirador dos meus poemas, sobretudo dos sonetos. Quer me conhecer pessoalmente, e diz ter uma proposta artística que pode me interessar. Recusando-se a revelar logo o assunto, e assim atingindo meu ponto fraco, faz-me logo marcar para o dia seguinte uma hora para recebê-lo em meu ateliê.
Estimulada por esse incidente, pus-me logo a escrever um novo ciclo de “Sonetos da Pintora”, que me foi gratificante, uma vez que ando ligeiramente deprimida pela solidão. Nessa série de sonetos, como é característica minha, narro o percurso dessa mesma solidão, comparando-a, num certo momento, com o barco vermelho perdido na tempestade marítima que surgiu inusitadamente em minha pintura:

Soneto de marinha II
Porquê me vejo assim como barcaça
Em perigo de chocar-se, no seu curso,
Contra rochedos, ali, como ameaça,
Em silhueta agressiva, como um urso?

Será a minha morte aproximada
Ou mais um acidente de percurso,
De minha existência atribulada
De pura vida interna, sem recurso?

Subjetivista empedernida
Que me sei, mas com certo desgosto,
Meu próprio mundo reflete-se na vida

Ou será justamente o oposto?
A vida atravessando meu cristal
Da alma, e “ prismando” o bem e o mal.

No Epílogo (último soneto do ciclo) fantasio um reencontro com Aline, revelando a mim mesma, a gravidade da minha fraqueza, e a persistência da minha saudade. Mas o leitor, espero, ficará mais uma vez com a impressão de uma autêntica alegria recuperada por mim no final.
No dia seguinte, à hora marcada, recebo o meu admirador, que me surpreendeu inicialmente pelo seu aspecto. Tive a impressão de defrontar-me com um poeta romântico, saído das páginas de Goethe, embora sem a casaca e o lenço no pescoço. Sua vasta cabeleira desgrenhada, atirada para trás, o olhar febril e aquela mesma palidez dos tísicos daquele período, impressionaram-me ironicamente, fazendo-me sorrir involuntariamente.
Alto, de gestos lentos, estendeu-me uma enorme mão branca de artista, expressiva mas dolente. Pareceu-me fria, em contraste com o seu olhar, que ardente, no entanto, me produziu um calafrio.
Convidado a sentar-se, lançou os olhos em torno, parecendo surpreendido por tantas telas, e foi logo dizendo, muito formal:
“— Senhorita Alma, meu nome é Humberto, e pertenço a uma confraria de sonetistas. Sei que pode parecer estranho. As pessoas, em geral, não têm a mínima idéia de que isso exista. Mas isso é devido à nossa intenção de preservar a exclusividade e a qualidade da produção dos nossos confrades. Não somos uma simples associação, mas um grupo de poetas que, dedicados ao soneto, preocupamo-nos em escondermo-nos e não, ao contrário, mostrarmo-nos ou promovermo-nos. Além disso, desde que alcancei, a dez anos, a gestão da atual diretoria, tomei a iniciativa de privilegiar a mais nobre vertente deste gênero, a meu ver: o soneto triste. Em Portugal, terra privilegiada do soneto, essa é a categoria mais apreciada, para além da alma nostálgica dos fados da Mouraria. Trata-se, mesmo, da nobreza intrínseca da melancolia romântica, que no soneto encontra o ápice do seu lirismo. Trouxe-lhe esta antologia editada em Portugal, como presente, que espero sinceramente, seja para você, se possível, aliciante.”
Estendeu-me um pequeno volume, cujo título, na capa, me causou um certo impacto: “ Os mais tristes sonetos de Portugal.”
O Sr. Humberto continuou:
“—Estou organizando a antologia deste ano, da nossa própria confraria, e garanto-lhe que a tristeza dos sonetistas brasileiros nada fica a dever à dos nossos companheiros de além-mar.”
Tive vontade de rir, e creio mesmo que esbocei um rápido sorriso, involuntário. Mas contive-me para não desrespeitar tanta venerável tristeza. Respondi:
— Humberto, (posso tratá-lo assim?) estou curiosa sobre o que você espera de mim, nesse terreno. Você sabe, considero-me uma pessoa alegre. Elegi a profundidade da alegria, ainda em minha infância, quando meu pai recitou, um dia, a canção de Zaratustra, que direcionou a minha vida de artista. Você deve conhecer: “Alegria, alegria, de um sono profundo acordei...”
Humberto sorriu ( tristemente) e ergueu a mão como para calar-me. Disse:
— “Senhorita Alma, eu sei... Percebe-se isso na sua poesia, que admiro muito. No entanto devo lhe dizer que encontro o verdadeiro filão de ouro, nela, nos poucos versos de depressão que ocorrem nos seus ciclos de sonetos, nos momentos de perda amorosa, onde a senhorita, como poeta, tem a rara capacidade de arrastar-nos consigo na sua descida, ao reino de Hades, das sombras de sua dor. É quando a senhorita atinge a excelência da sua capacidade lírica.”
Fitei por um longo momento os olhos do meu interlocutor, que de certo modo me fazia ver um aspecto da minha poesia que eu não privilegiava pois a sua dor me afligia, fazendo-me lutar para superá-lo como indesejável, vindo justamente do meu coração português, herdado dos meus antepassados açorianos, por parte de mãe.
Humberto, a seguir tirou um livrinho do bolso de seu paletó, que era o seu primeiro livro de sonetos absolutamente tristes, conforme me informou. Eu confesso que não sabia se devia abri-lo imediatamente, em sua frente. Me parecia uma espécie de despudor, ou no mínimo de intromissão de minha parte. Era uma situação grotesca, me pareceu.
Então meu visitante pediu-me para ler para ele o primeiro ciclo de Sonetos da Alma, aquele em que conto minha relação com Aline e sua perda.. Queria ouvir os sonetos de dor, o retorno à minha casa no Sul, que ele reputava sublimes. Recusei-me, aquilo me revoltava. Eu jamais leria esses sonetos para alguém:

Ai, quero morrer da dor que me consome
Abandonada, estou, abandonada.
Mulher antiga, frágil, desvairada,
Nem me envergonho mais, não tenho nome.

Esta Alma aqui, pintora e poeta
Ou poetisa (que coisa mais pateta)
Perdida de paixão e consumida
Pela perda mortal da minha amiga.

Abandonada, sim, quero morrer,
Quero voltar ao sul, quero encolher
E colocar-me pequenina no meu leito

No quarto antigo da mansão paterna
Enquanto minha alma hiberna
Ao minuano que sopra no meu peito.

Minha prerrogativa ao escrever assim, tão confessionalmente, era justamente não olhar para os meus confessores, os leitores: mantê-los invisíveis, ou quase abstratos para mim. Enfim, confessar-me, na verdade, a mim mesma.
Diante da minha recusa, Humberto desculpou-se, aceitou um café que lhe ofereci e preparando-se para retirar-se, reiterou o convite para juntar-me à sua confraria, entregando-me seu cartão,com o seu e.mail e o site dessa espécie de Clube da Desolação. Por minha vez, agradecendo sua amabilidade, ofereci-lhe alguns dos meus livrinhos de poemas, em especial os de sonetos, editados pelo meu amigo pintor, pelas suas “ Edições do Pavão Misterioso”.
Acompanhei Humberto até a porta, apertando-lhe a mão. Quando partiu, voltei-me para dentro com um longo suspiro, logo seguido de uma gargalhada.
.....................................................................................

Desde a visita de Humberto, passou-se uma semana, quando afinal recebo um telefone seu, convidando-me para conhecer a sede da confraria, onde se dará uma espécie de cerimônia, ou ritual dos confrades, que ele gostaria que eu presenciasse, na esperança da minha decisão de participar desse clube dos tristes...
Diante de sua insistência, combino com ele vir buscar-me nesse dia às tantas horas.
Ao soar o interfone, desço vestida como para uma cerimônia solene. Sinto-me um pouco ridícula, por esmerar-me tanto no traje, como se fosse exibir-me num suposto templo do espírito, embora misterioso e envolto em brumas de melancolia, como eu imaginava. Mas Humberto parecia não reparar no meu aspecto físico( na minha beleza, para ser sincera). Era um homem muito sério. Um poeta totalmente voltado para a poesia, conforme acabou declarando. O que queria dizer isso? Perguntei-me. Eu sempre pensara na poesia como expressão de minha própria vida, dos meus desejos, devaneios e... dos meus amores. É claro que eu sabia que expressava também meus pensamentos, duradouros, junto com os fugazes...embora igualmente revelasse meu culto à beleza e à Arte, que me mobilizava desde a infância.
Com esses pensamentos não reparei no trajeto, e logo chegamos a uma mansão no bairro de Higienópolis. A palavra Higiene no nome do bairro me fez imediatamente lembrar da expressão “higiene mental” tão usada pela minha mãe, coisa que me irritava pela sua impertinência nos momentos de minhas introspeções, que ela tachava de “melancolia mórbida”, prenunciadora da artista que ela temia que se desenvolvesse em mim.
Entramos com o carro por uma alameda de cascalho, ladeada de grandes árvores e palmeiras, até a entrada pomposa do palacete que me pareceu soturno.
Alguns degraus e grandes colunas na fachada denunciavam o estilo senhorial da família que outrora habitou esta casa. Ao entrarmos na grande sala penumbrosa e fria, reparei antes no assoalho maravilhoso, encerado como um espelho. Percebi que a penumbra vinha do passado desta casa, isto é, da necessidade de nublar o espelho do assoalho, perigoso sob a saia das senhoritas e senhoras de então ( esta idéia improvável me fez sorrir ).
Humberto nos fez atravessar o salão, e enveredarmos por corredores, portas e mais portas, entalhadas, escuras, sinistras, até atingirmos um novo imenso salão, insuspeitado, onde já estavam reunidos os membros da confraria.
Lancei os olhos em torno, literalmente girando todo o corpo no meio do salão, o que produziu poucos sorrisos no meio daquelas fisionomias tristes. Os olhares de todos os presentes estavam sobre mim, que abanei a mão canhestramente, dando um “oi” geral. Como resposta ouvi um alto e uníssono “BEMVINDA, COMPANHEIRA POETA!!!”, que me fez quase dar uma gargalhada.
Convidada a sentar-me, apontaram-me uma cadeira de espaldar alto, antiga, entalhada, como todas as que ali estavam. A solenidade ia começar.
Após uma breve preleção sobre os valores sagrados da tradição poética do soneto, e a enumeração dos seus mais sagrados estilos e métricas, como o dodecassílabo alexandrino, o soneto italiano, o inglês( em particular o shakeaspeariano ) e um belo ensaio sobre o soneto português a partir de Camões, sua superioridade e sua tradição de tristeza e nostalgia insuperáveis (eu estava perplexa!...)
O orador, um senhor idoso, franzino, de grande testa e olhar ainda brilhante de entusiasmo, terminou lindamente com um soneto do poeta português Guilherme de Faria, segundo informou o nosso palestrante, nascido em Guimarães, em 1907 e falecido em Lisboa, em 1929, e incrível homônimo do meu amigo e editor em cordel, o pintor e poeta de São Paulo, o que me surpreendeu tremendamente. Fiquei louca de vontade de contar logo a ele esse episódio. Eis o soneto lido pelo velhinho:

Êxtase

(A Uma Mulher)

Eis-me longe, a sonhar, a alma suspensa
E alvoroçado o coração, cativo
Do amor, do sonho que pressinto e vivo
Ao ver a tua formosura imensa

Que o desalento, as mágoas, a descrença
Que sinto n’alma, a um teu olhar furtivo,
Tudo se esvai, no sonho redivivo,
E em viva luz de esperança se condensa.

Cheia da tua graça, a minha vida,
Por milagre d’amor e alta quimera,
É a terra abençoada e prometida!

E assim, nesta ilusão, ah, quem me dera
A alma, na morte, livre e redimida,
Se não é eterna a tua Primavera!

Fiquei até mesmo um pouco comovida, não sei bem porquê, já que o soneto, ao mesmo tempo, me soou comum, e um tanto acadêmico. O fato é que o senti como se dirigido à minha pessoa noutro tempo, noutro lugar. Creio mesmo que derramei uma lágrima.
Em seguida, os membros, um por um, apresentaram o último soneto de suas lavras, de uma tristeza avassaladora. As lágrimas dos presentes corriam, ouvindo-se até alguns soluços e gemidos. A cada final ou chave de ouro, ouviam-se aplausos e comentários, até mesmo algumas saudações em voz alta de uns para os outros. Eu estava deliciada, mas ao mesmo sem saber se ria ou se chorava. A verdade é que alguns sonetos realmente me pegaram, e eu me senti, por momentos, gratificada com aquela experiência. Porquê, então, ainda havia em mim uma certa resistência crítica? Eu temia que me convidassem a declamar um soneto meu. Soube depois que isso não poderia acontecer nesta confraria. Antes eu teria que afiliar-me e passar por um inusitado ritual, que não revelarei jamais.
.....................................................................................

Sintomaticamente, dediquei-me nos dias seguintes, com afinco, à minha pintura. Mas tarde da noite, no terceiro dia, lá estava eu a escrever poesia, embora evitando a tentação do soneto. Aquilo me parecia uma atividade um tanto anacrônica, a mim que descobrira a plena abstração na pintura, o que me dava imensa liberdade de expressão, livre das amarras da figuração, do assunto... ou da anedota, como dizia o velho e grande Volpi.
Mas a verdade é que a minha alma lírica clamava pelo soneto clássico, cuja métrica e rima funcionavam como um desafio e cuja disciplina era a mesma da Música, que exige suas regras de cadência, contraponto e harmonia, além do dom milagroso da melodia.
Humberto telefonava-me praticamente dia sim, dia não. Acostumei-me com a sua solenidade, e aprendi a apreciar a sua ingênua falta de senso de humor, compensada por um coração puro e um idealismo admirável, embora tão demodé
Seu cavalheirismo encantava-me, já que encontrava ressonâncias antigas na minha alma, não fosse eu como pintora e poeta, um tanto idealista também, num mundo de massas, que conspira continuamente contra toda arte solitária ou elitista.
Começou a trazer-me flores, o que decididamente me enternecia e cooptava.
Então um dia, conseguiu arrastar-me para a Confraria onde ingressei, num ritual secreto, e com a leitura dos meu ciclo de “Sonetos Metafísicos”, que, não sendo propriamente tristes, entretanto poupavam-me da exposição do aspecto confessional e até mesmo erótico dos meus outros ciclos:

Volto ao pomar da minha infância
Lembrada qual se fosse a Grande Era,
Comovida com os ecos à distância
Que a própria memória reverbera.

Caminho ao redor da macieira
Como outrora, com a mesma sensação
De ouvir mais claro o sopro e o coração,
Junto às raízes em que estou inteira

E confiro junto ao tronco e suas folhas,
Do meu destino o preço e a missão,
Pedindo só ao Tempo: “Não me tolhas,”

“ Me deixa completar a minha sina
Seguindo do meu ser a inclinação
Como a semente ao fruto se destina!”

Fui moderadamente aplaudida, já que faltava o elemento de tristeza pungente, caro àquela confraria. Mas eu estava sendo envolvida pelo puro encadeamento de circunstâncias, e deixei-me levar pelo fluxo dos acontecimentos, conforme prescreve a doutrina que me é cara: o Tao chinês.
Foi então que, nesse processo de assistir às lacrimosas sessões da confraria, ouvindo sonetos às vezes torturantes, outras sublimes, começaram a acontecer aquelas mortes.
.....................................................................................

Humberto telefona-me, tarde da noite, angustiado, para comunicar-me o duplo suicídio de dois membros da confraria, que foram encontrados no sótão da mansão, enforcados em duas vigas do telhado, frente a frente, de maneira insólita. A polícia, disse ele, nunca vira um suicídio assim. Tanto mais que o esperado bilhete, ou bilhetes, eram dois sonetos respectivamente achados sob seus pés. Aquilo era no mínimo irregular, afirmou o delegado, indignado. Que malucos se dão ao trabalho de redigir um soneto antes de se matar?. E ainda por cima dodecassílabos! Tive um inoportuno acesso de riso, ao telefone, que disfarcei com dificuldade em soluços e pranto.
No dia seguinte, bem cedo, dirigi-me à Mansão dos poetas, para uma cerimônia fúnebre e o velório no salão principal.
Espantei-me de ver que os membros da confraria usavam capas pretas, debruadas, de estilo oitocentista, e chapéus cocos negros.
Eu estava vestida de preto também, claro, e congratulei-me de estar com meu chapéu preto de renda sobre os olhos, remanescente do luto de minha remota viuvez.
Percebi que os olhos de muitos dos membros da confraria me seguiam, atentos aos menores movimentos e atitudes, mas logo atribui isso a uma impressão subjetiva, fruto do meu auto-reconhecido narcisismo. Surpreendi-me também com a ausência de discursos e sonetos ali naquele velório inaudito.
Mais tarde, no enterro, eles não faltariam. Até eu fui chamada junto ao túmulo para recitar o mais obscuro soneto de minha lavra, que pude desenterrar de minha memória:

O amor é a origem do calor
Que em tudo põe sua nota de vigor
E aquilo que acaso esteja frio
No universo pertence ao seu vazio.

Mas justamente isso é que me intriga
O imenso Mistério que restara
De Deus que ao criar a chama clara
Também criou sua inimiga

A luz e a escuridão, porquê a segunda?
Vazio d’alma, o frio coração
Porquê, meu Deus, a dor tão funda

O bem, o amor, a luz e sua benção
Não se reflete no vazio sideral
Dessa lacuna então preenchida pelo mal?

Pareceu-me que para alguns presentes, o meu soneto não caiu bem, causando estranheza. Esperavam um tom discursivo e panegírico, laudatório, de caráter fúnebre, talvez? Jamais saberei. Eu não pertencia, certamente, a esse ninho estranho, de pássaros agourentos, essa é a que é a verdade.
.....................................................................................

Procuro as cores claras e a alegria em minha pintura. Procuro? Não, não é bem assim: elas saem de mim, pois não rejeito o negro, o azul da Prússia, e o ultramar em grandes telas quando a alma em mim os exige.
Tenho pensado no estranho duplo suicídio, atribuindo o gesto extremo à morbidez que deve ter assolado o espírito daqueles dois poetas.
Humberto continua a me telefonar, cobrando-me sonetos para a nova antologia anual que está preparando. Insiste em que devo me concentrar na poesia, que considera o Poeta, enquanto ser, o mais elevado ponto da condição humana, muito além ou acima, do pintor e mesmo do músico, o que suspeito seja um tanto esprit de corps, isto é, corporativo, e por isso o suicídio, segundo ele, é tão comum entre nós (assim se expressou).
Não consigo discordar, embora essas classificações me causem um certo mal estar. Porquê será que tantos poetas se suicidaram ao longo da história? Confesso que um arrepio de medo me tomou por um segundo. Tenho-o dentro de mim? Meu suicídio? Tratei de afastar esses pensamentos.
.....................................................................................

O telefone toca, e é Humberto angustiado, pedindo para ver-me com urgência. Implora-me que o receba em minutos. Na verdade está já debaixo do prédio, com seu celular. Peço-lhe que suba, embora esteja de peignoir.
Humberto chega esbaforido, mas percebo-lhe um relance de olhar avaliativo sobre toda a minha pessoa, fazendo-me cobrir-me um pouco mais com os braços, e o decote com as mãos.
O poeta começa a contar a novidade funesta desta manhã : mais um suicídio na irmandade.
Pede-me encarecidamente que me vista rápido e que o acompanhe até a mansão.
Diante de tal urgência, deixo-o na sala e vou por um tailleur escuro discretíssimo, sapatos de saltos baixos e passo pela sala torcendo um rabo de cavalo com uma das mãos, manobra que este observador atento ainda deu-se o luxo de prestar atenção, eu percebi.
Descemos rapidamente e entramos no seu carro, tocando aflitamente para a sede.
Em pouco tempo estávamos num dos banheiros da mansão, diante de um corpo exangue, sentado numa poltrona, com um braço caído dentro da banheira cheia de água quente avermelhada, quase até a borda. Este poeta, percebia-se, era bastante meticuloso. Talvez só compusesse sonetos alexandrinos perfeitos, e com a chave de ouro. O bilhete, digo, soneto, acabado, sem uma manchinha de sangue, estava perfeitamente pousado na borda da banheira. Arre! Eu estava ficando farta.
Mas antes de assim pensar, desmaiei.
.....................................................................................

Acordei com Humberto dando-me tapinhas no rosto.
Assim que pude coordenar os pensamentos, protestei veementemente contra sua conduta. Como pôde ele me trazer ali, antes de chamar a polícia? Isso era, no mínimo irregular. Irracional mesmo, aparentemente. Que queria ele? Assustar-me? Apresentar-me a verdadeira face da Morte? Tive vontade de bater-lhe.
Perguntei-lhe o que pretendia fazer com o corpo, e porquê me chamara para ver isso. Não percebia o quanto aquilo era comprometedor? O que diríamos à polícia? Humberto parecia desnorteado. Disse que, na verdade, sentira-se compelido a compartilhar esta visão estarrecedora comigo, não sabia bem por quê.
Eu só queria sair dali o mais rapidamente possível. Somente ter tido aquela visão funérea e real, já me fazia sentir comprometida. Corri para o carro e vomitei no banco de trás. Humberto demorou alguns segundos para chegar, suspirar, sentar-se à direção e partirmos.

.....................................................................................

Começo a suspeitar de Humberto, depois deste terceiro suicídio. Recuso-me a ir ao velório. Tenho vergonha deste defunto, por ter devassado a sua intimidade, embora tenha sido forçada a isso.
Como não poderia deixar de ser, logo recebo uma intimação da polícia para depor. Assustada, telefono para o Humberto, que se presta a me acompanhar à delegacia. Recuso. Não quero a sua companhia que acho comprometedora. Prefiro chamar um advogado.
Toquei a campainha do meu vizinho, jovem advogado engomadinho que me cumprimenta formalmente, estranhamente enrubecido, toda vez que me encontra no elevador. Ele abre a porta surpreso e encabulado, e assim que ouve meu resumo e pedido, presta-se logo a me acompanhar à delegacia.
Diante do delegado, começo uma explicação surrealista, que só não o põe perplexo porque na verdade esses policiais nada revelam (por experiência profissional) em seus rostos impassíveis. Meu vizinho advogado está ali somente para infundir respeito, o que é insuficiente, pois a delegacia está cheia de prostitutas detidas que me perguntaram alto, à entrada, provocativamente, o preço do meu “michê”.
Depois de ouvir-me atentamente, o delegado liberou-me pegando apenas o meu endereço, embora o meu vizinho tenha adiantado o seu cartão, com o telefone do seu escritório. Tudo isso, vindo da polícia, me parecia suspeito, e eu com a minha imaginação disparada, já me via indiciada, encarcerada numa cela cheia de “mulheres da vida” que me devoravam como sanhaços. Eu estava ficando nervosa. Temia ficar histérica.
Voltei ao meu estúdio, rememorando as perguntas do delegado, e percebendo melhor sua tendenciosidade, e os sinais de sua suspeita. Como soubera ele da minha presença naquele banheiro, antes da chegada da polícia? Não importava. A evidência de suicídio era mais que suficiente, embora o seu caráter agora serial, pusesse uma nota suspeita em tudo, a começar pela instituição, respingando também na existência já suficientemente anômala dos Poetas Tristes, numa sociedade como a nossa, votada à auto-satisfação prazerosa.
.....................................................................................
Humberto veio encontrar-me no estúdio, sem a minha permissão. Abri-lhe a porta e ele avançou para mim e me abraçou, beijando-me apaixonadamente os lábios. Em seguida ergueu-me com facilidade em seus braços, carregando-me no colo para o quarto como se já conhecesse profundamente os terrenos: minha carne, meu quarto e meu leito. Jogou-me sobre a cama e abriu-me a blusa com habilidade, puxou-me a saia, a seguir a calcinha, e praticamente estuprou-me, pois não houve prolegômenos, carícias, melhor dizendo.
O tom erótico começou, na verdade, após o seu orgasmo quase brutal. Vendo-me largada, passiva, um tanto triste, pôs-se a manipular meus mamilos, e em seguida meu clitóris, introduzindo então seu dedos na minha vagina inundada, fazendo uns barulhinhos obcenos, não para se redimir, mas com uma nota perversa, eu percebi. Eu permanecia imóvel, com o rosto voltado, onde as lágrimas não corriam. Eu me entregava a uma humilhação voluptuosa, que na verdade não me era desconhecida.
O timbre masoquista da minha sexualidade, pelo seu lado emocional e moral, é que sempre me surpreendeu. Minha memória retrocedeu rapidamente para aquele episódio de minha meninice, quando flagrada nuínha sob a macieira, deitada ao lado de Rodo, meu irmãozinho, igualmente nu, fomos arrastados pela mão, por minha mãe, peladinhos, até o casarão, sob os risos dos peões:

Deitados sob a árvore, e interrompidos
Tocaiados fomos e flagrados.
Ainda sinto nossos dedos doloridos
Que foram brutalmente separados.

Estava nua, é certo, e soluçante,
Pois éramos apenas uns guris
Num flagrante assim tão degradante,
Tratados como criaturas vis.

Ai, Rodo, ai amor, sou tua irmãzinha!
Que pena, que dor, se assim me lembro
Pois mal tinha tocado o teu membro

Que era uma coisinha tão pequena
Que eu queria agasalhar na minha conchinha
Guardando-a protegida desta cena!...

Depois, naquela fazenda de Minas, no paiol, o estupro dolorido...e prazeroso, por uma serpente de olhos verdes, que marcaria minha sexualidade para sempre com esta nota...perversa. Eis a verdade, da qual não me envergonho:

Guardei-me tanto tempo, até demais,
Pra quem tanto amou desde pequena,
Para então ser invadida, em tantos ais,
Nos nós de uma serpente que envenena

Mas cuja peçonha atenuei
No amor, e a duras penas conservei
O sonho, enquanto o corpo devassado
Deixei ser assim experimentado.

Vocês que lêem os meus contos
E poemas, já sabem de que falo
Eu falo tanto assim, marcando pontos

Pois quando me quero compensar
Entrego o coração e o pelo ralo
Da guria que fui, no meu pomar...

Humberto deixou-me ali largada, confuso diante da minha passividade. Retirou-se rapidamente do apartamento, para meia hora depois telefonar pedindo-me desculpas.
Respondi-lhe que não se preocupasse, que tudo isso era agora irrelevante diante do problema que tínhamos nas mãos: os indícios evidentes de um suicídio serial, entre os poetas da Confraria, da qual eu fazia parte, sem querer.
.....................................................................................
Permaneci num estado sonhador e triste por alguns dias. Humberto conseguira me cooptar para a melancolia, com facilidade previsível no meu caso. Lembrava-me dos meus próprios passados versos de depressão, e mais chorava:

Vento frio, minuano, inverno desta alma...
Andando pelas sendas do jardim paterno
Da cidade natal, da terra que me acalma
E deixa a dor mais triste que o inverno

Buscando a macieira, caminho no pomar:
Tão velha e sábia, testemunha cega
Do meu lento crescer, do meu desabrochar
Com os rubros pomos que a razão me nega,

Aqui sob esta árvore assim primordial
Procuro a minha paz dentro do peito
Enregelado, mudo, lento e invernal.

Sopra o minuano ainda no meu leito
Onde o meu amor transido neva
Sobre a alma, que o vento quase leva.

Humberto telefonava-me todos dias, desesperado de paixão. Pedia-me perdão, justificava-se, dizendo que perdera a cabeça de tanto amor e desejo. Dizia que se eu não o recebesse, ele seria o próximo. Assustada diante dessa chantagem, consenti em recebê-lo.
Tomei a precaução de estar vestida com o meu jeans mais grosso e justo, verdadeiro cinto de castidade, impossível de ser tirado, aberto ou rasgado. Na verdade, eu sabia que me prevenia conta mim mesma, meu forte desejo.
Humberto estava ajoelhado diante de mim, como um cavaleiro antigo, e pedia perdão, protestando amor eterno, de maneira um tanto arcaica, que me fez sorrir. Fi-lo levantar-se pelo queixo, explodindo em gargalhada. Logo estávamos girando abraçados no meio do ateliê, com meus pés no ar.
Em seguida sentamo-nos para conversar. Mal começáramos a conferir os nossos sentimentos e o telefone tocou. Atendi, ansiosamente, e como esperava, ouço a notícia pela voz do delegado: novos suicídios na Mansão. Agora triplo. Deixei cair o fone, paralisada, enquanto Humberto o pegava e gritava:
— Alô! Alô! Delegado?!

.....................................................................................

Ali estávamos nós, novamente, desta vez vendo a polícia ensacar os mortos e coloca-los no camburão do IML. Aquilo já estava se tornando rotina. Nesse andar não sobraria mais poeta algum para contar a história...da Alma, digo, da alma.
Eu estava cheia de atos falhos, “lapsus linguae”, e sentimento de culpa. Sobretudo isso. De onde me vinha esse sentimento? Eu sempre me sentia assim toda a vez que alguém se suicidava... Porque não o acudi? Porquê não o convenci a viver? Não conseguira persuadi-lo de que a vida é bela, de que viver vale a pena, apesar de tudo, de todo o sofrimento do “vale de lágrimas” que era a sua contraface. Alegria, alegria, dizia o outro lado, em vão...Lembrei-me da minha experiência com um artista suicida, o violinista Alex Martelli:

Apaixonada alma atormentada
Puseste o amor, num tal momento,
Acima de tua música e talento,
E isso foi, na certa, a coisa errada.

Ah! Se me fosse acessível
E eu pudesse, a ti, só segurar-te
No fatal segundo tão terrível
Para fina corda não enforcar-te

E pudesses retornar ou só mantê-la
No teu belo Guarnerius, violino
De toque tão cruel e muito fino

E não (ó horror!) a degolar-te
Como vi, estarrecida, ó cena aquela!
“Finale” de uma tão sinistra arte...

O delegado Evaristo, olhava-me com olhar severo. Saberia ele que eu era culpada? Minha beleza devia ser destrutiva, eu tivera algumas provas disso no passado. Eu, que só desejava o bem e a felicidade das pessoas!
Soltei um fundo suspiro, mais parecido com um gemido. O delegado devorava-me com os olhos, que pareciam lembrar: “Cherchez la Femme...”

....................................................................................

Humberto continua a visitar-me todos os dias, principalmente à noite. Os suicídios pararam em quatorze, sugestivamente, o número de versos do Soneto, não me perguntem porquê.
Eu me entregava ao poeta, de todas as maneiras, em todas as posições, sonetista ocidental versado no Kama-Sutra que ele era... Até que a polícia veio buscá-lo.
Afinal o delegado resolvera indiciá-lo por “indução serial ao suicídio”, algo que não conferi se existe no código penal. Não quero saber. Quero que levem Humberto para longe de mim.
Não quero mais saber de sonetos tristes. Abandono a Confraria. Quero encerrar aqui esse capítulo esdrúxulo de minha vida de pintora-poeta. Renuncio à minha própria tristeza.
Incorrigível, abro novamente os braços à alegria:

Em ciranda, rodando numa pista
Nestes sonetos comando a encenação.
Sou diretora, atriz e roteirista
E compus também o tema da canção.

Cantando todos juntos de mãos dadas
Na apoteose, o estribilho e o refrão
Que louva só o amor, e as trapalhadas,
Que cômicas e ternas elas são!...

Neste musical , ó Alma, falas
De um novo prisma, foco e criação,
Que tudo vês, até o que tu calas...

Enquanto a platéia se comove
Cai o pano, lentamente ele se move
Vindo de cima... enquanto cantas, coração!

FIM
10/05/2004


___________________________________


Nota da editora

Este conto consta do livro Contos da Alma, de Alma Welt, que foi publicado em 2004 pela Editora Palavras & Gestos, de São Paulo, e que ainda se encontra em várias livrarias de São Paulo, como a Livraria Cultura e a Livraria da Vila (alameda Lorena). A Editora deu permissão para que eu publicasse aqui ou em outros blogs literários da Internet alguns contos do livro, a título de aperitivo. Devo contar aos leitores que o grande poeta paulista Paulo Bomfim procurou-me no ano passado (quando estive em São Paulo) para entrar em contato com a Alma (quando então soube por mim, que ela havia falecido em 20/01/2007). Disse-me ele ao telefone, que Contos da Alma era "o mais belo livro que" ele "lera nas últimas décadas" (palavras dele) e por isso quis conhecê-la. Convidou-me a tomar chá com ele em seu apartamento( impressionou-me como ele é um homem belo e charmoso ainda aos 80 e poucos anos). Na ocasião escreveu um prefácio poético, verdadeiro poema em prosa para a Alma, para ser publicado no próximo livro dela. Sei que a Alma se sentiria profundamente honrada. (Lucia Welt)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

O casamento não sonhado da Alma (de Alma Welt)





Estou novamente apaixonada. Amo este homem jovem e belo que apareceu em minha vida e que parece compreender-me e aceitar-me como sou: uma artista independente, profissional, que pretende conservar-se assim para sempre. Todavia ele insiste em casamento. Digo-lhe sempre que não é preciso, que estamos tão bem assim, vivendo praticamente juntos, em meu ateliê, com a reserva de privacidade que as nossas vidas e profissões exigem. Tem dias que peço para ele não vir em certos horários enquanto estou pintando, porque se ele estiver aqui vou cair-lhe nos braços e vamos direto para a cama, essa é que é a verdade. É difícil resistir-lhe e ele a mim. E aí não vai ter pintura, não vão sair quadros, exposições etc.... Mas ele explica que o casamento é uma decorrência natural do ponto de intimidade e felicidade em que estamos. Mas começo a perceber que a sua família, com quem ele mora, e que é tão importante para ele, é um instrumento de pressão. Pressinto-lhes as razões um pouco preconceituosas, afinal, é uma família burguesa, que não pode ver com muito bons olhos o seu “menino” ligado a uma artista que eles pensam boêmia ou até mesmo promíscua, a menos que ele a retire dessa vida nada “recomendável”.
Sua mãe parece simpatizar comigo, mas vive a me alertar que “o Veiga é uma fera”. Se ela soubesse o que a palavra “veiga” significa (homem vil, covarde)... É claro que estou brincando. Não tenho motivos para duvidar da ferocidade do seu marido, que ainda não vi, pois nunca está lá quando sou levada a visitá-los. Parece que ele vive mais no centro espírita que freqüenta do que em sua própria casa quando não está trabalhando. Thomas, esse é o nome do meu “noivo”, parece acreditar também nessa “braveza” do pai, pois confirmou isso diante de mim, na presença da mãe. Por um momento, tive até medo. Por que será que eles temem tanto o Veiga?
Bem, o tempo passou, e agora a pressão que vem daquela casa através do Thomas é tão grande, que vendo-o nervoso, começo a ceder. Por que não casar afinal? Como não acredito na instituição, tanto faz. Nenhum papel pode afetar a minha integridade de artista livre. Só o amor pode acorrentar-me, por vontade, penso eu. Sei que posso parecer um pouco ingênua, mas o meu senso de liberdade já se tornou conhecido nos meios onde me movimento. “Alma é rebelde”, dizem eles, “nada pode prendê-la, ela respira liberdade”, comentam.
Marcado o dia de falar com o Veiga, à hora combinada Thomas recebe-me agitado em sua casa, e depois de beijar-me intensa mas nervosamente, conduz-me até a sala de visitas, onde apresenta-me a “fera”.
Seu Veiga, um homem simpático, estava sentado ao lado de sua esposa, dona Maria. Percebi o receio de Thomas em apresentar-me e dar a notícia ao pai. Hesitante, Thomas afinal disse:
— Pai, esta é Alma, minha noiva. Queremos nos casar, e peço-lhe seu consentimento e... sua benção.
Thomas estava quase gaguejante, o que me causou uma má impressão.
Seu Veiga, sem nenhuma expressão no rosto, olhou o filho por alguns segundos de suspense e exclamou, virando-se para a mulher:
— Ótimo, não é Maria? Eles podem morar naquele apartamento da Praça X que acabamos de reformar, não é mesmo?”.
Quase soltei uma gargalhada, na verdade bastante aliviada.. O Veiga que era uma “fera” já tinha tudo preparado para livrar-se do filho, suspeitei, por uma fração de segundo.
Após um brinde rápido, seguido de um agradável almoço, despedi-me daquela família, beijei Thomas e voltei ao meu ateliê.
Thomas faz questão de casar-se no religioso. Isso me incomoda. Depois de quase uma discussão, chegamos a um acordo. Aceito casar-me desde que não seja na igreja de véu e grinalda. Quero uma cerimônia simples, numa casa particular.
Minha boa tia ficou contentíssima com a notícia de meu casamento, puxou-me sobre a sua cadeira para beijar-me e abraçar-me. Deu imediatamente seu consentimento para usarmos sua casa como quiséssemos para a cerimônia e a festa.
Comunicado o seu Veiga, este contratou uma empresa e preparou o jardim da casa com grandes toldos, muitas flores por toda a parte e mesas e cadeiras para centenas de pessoas.
Eu comprara um vestido chique, mas simples, e um arranjo de cabeça que não era um véu, mas sim uma guirlanda de florzinhas miúdas, entretecida nos cabelos. Thomas apareceu com o tradicional terno escuro, colete cinza e gravata prateada. Formávamos um lindo casal, diziam todos.
Eu estava meio incomodada, algo me dizia baixinho que eu fizera muita concessão, que aquilo era uma farsa, que nada tinha a ver comigo, a pintora livre, moderna e nada afeita a tradições burguesas.
A casa encheu-se dos convidados. Senhores em seus ternos e senhoras enchapeladas. Os convidados do seu Veiga pareciam especialmente formais. Soube tratar-se dos membros do “Centro Espírita Padre Zabeu”. Um dos quartos, no andar superior, estava lotado de presentes. Louças e pratarias de toda espécie, a meu ver de péssimo gosto, e um faqueiro, meu Deus, pomposo, aparentemente de prata, numa grande caixa de madeira. Planejei botar aquilo tudo num leilão.
Na hora esperada, chegou o padre, à paisana, com uma estranha maleta negra e, pedindo um quarto à minha tia, subiu para vestir a batina e paramentar-se.
Desceu em seguida, já pronto e ainda com a maleta. Abriu-a no fundo do salão, na frente dos presentes, com uns gestos destros como um prestidigitador e, num passe de mágica, com um fantástico ruído: clá, clá, clá, clá... de dentro dela despejou-se um altar portátil de metal, que como num jogo de armar, maravilhosamente articulado, ficou instantaneamente erigido diante dos presentes que soltaram um “Ah!”, uníssono.
Não pude agüentar, soltei uma gargalhada, abafada pela mão de Thomas.
Após a cerimônia, que quase me comoveu, o presidente do Centro Espírita tomou a palavra e fez um longo discurso tão parnasiano, que me deu vontade de fazer xixi: cheio de laços, pombos, ninho de amor, Himeneu foi saudado devidamente, às raias do sono de Morfeu. Arre! Eu estava começando a ficar indignada com o Thomas. Terminada a oratória, corri para o banheiro.
Não me deterei mais sobre os detalhes deste casório. A lua de mel nos esperavva, depois de algumas taças de champagne.
Após um dia delicioso no nosso apartamento, sobre o qual não falarei por razões óbvias, chegou uma estranha entrega anunciada pelo interfone da portaria. Mandamos subir e, para minha surpresa, eram trinta caixas de champagne, que sobraram do suntuoso buffet encomendado por meu sogro.
Thomas mandou empilhá-las na cozinha e depois de uma gorjeta aos carregadores, fechou a porta e, para minha surpresa, abriu uma garrafa que espocou na cozinha e serviu duas taças. Fizemos um brinde ao nosso lar e à nossa felicidade. Eu estava encantada. Jamais poderia prever, naquele momento, o que se passaria daí para frente, mas vocês podem imaginar.
Em resumo, Thomas bebeu as trinta caixas em um mês. Acordava com a taça na mão, brindando ao sol e caía de noite, fora da cama, brindando à lua. No trigésimo dia, sem que eu lograsse tirar as garrafas de sua mão e mesmo da cozinha, Thomas entrou em coma alcóolico, foi levado às pressas ao hospital e enfartou na ambulância. Meu Thomas morreu em meus braços, exalando álcool por todos os poros. Eu estava confusa, magoada, enojada, perplexa e comovida, tudo ao mesmo tempo. Fui para casa antes do velório com uma estranha necessidade de comer bife de fígado. Eu me sentia represada, precisava vomitar, o que fiz durante três dias.
No velório fui a caráter. Vestida de preto com chapéu de rendinha negra sobre os olhos. Sua família olhava-me com ódio. Ouvi no ar, circulando, a expressão “viúva negra”. Resolvi comportar-me de acordo e assumi um ar sinistro meio teatral, mas nada disso aliviava o meu mal-estar. A atração intelectual que eu tinha pelo grotesco não me ajudava mais.
Deixei escapar um longo soluço na frente de todos os presentes.

12/08/2001

O Condestável Gottfried (de Alma Welt)


(Quatro fragmentos do romance O sangue da Terra, de Alma Welt)


O condestável Gottfried suspendeu a caçada, entregando sua balestra ao seu escudeiro e estendendo a mão enluvada, apanhou o bilhete que lhe trazia um pajem que chegara a galope. Leu, e em seguida amassou o bilhete, e com ele cerrado no punho deu rédeas ao cavalo, que por sua vez galopou de volta ao castelo.
O fidalgo, visivelmente irado, cruzou a ponte levadiça a galope, e apeando do cavalo ainda em movimento, atravessou parte do pátio, espantando as galinhas, e saltando alguns degraus adentrou o amplo portal, e a passos largos, como um furacão, foi direto à cozinha, onde encontrou Lady Margareth, a inglesa que desposara, depois de um tempestuoso caso diplomático que incluíra paixão e intrigas palacianas, e ali em frente aos cozinheiros, copeiras e outros serviçais, homens e mulheres, agarrou brutalmente sua esposa que quis esboçar um sorriso, mas logo assustada e horrorizada, foi virada de costas e inclinada sobre a grande mesa da cozinha, teve sua ampla saia e as suas sete anáguas levantadas e suas brancas nádegas expostas. Retirando seu imenso membro rubro e vibrante, da braguilha estourada, o duque enterrou-o de imediato e brutalmente no ânus rosado de sua mulher, que soltou um imenso grito, sodomizando-a, ali, na frente da criadagem. Depois do violento orgasmo, agarrou-a pelos longos cabelos ruivos e arrastou-a pelo salão e corredores, até o quarto, onde empurrou-a sobre a cama de dossel, desfigurada e em lágrimas, atirando-lhe por cima o bilhete amarfanhado, em seguida retirando-se imediatamente, sem nenhuma palavra, cerrou a porta, trancando-a por fora, à chave.
Lady Margareth engravidou depois daquela noite, e durante toda a sua gestação, corria no palácio, principalmente entre a criadagem, que fora fecundada pelo ânus, coisa que muitos testemunharam, e que a criança seria, portanto, “filha de Sodoma” e nasceria, literalmente “por ali.” Ao nascer, a criança foi arrancada aos braços da mãe e entregue a um casal de camponeses para que a criassem longe dali, mas ainda em terras do duque.
Minha avó Frida, que eu considerava uma espécie de bruxa, contou-me esta estória quando eu tinha doze anos, sem maiores considerações pela minha inocência, para explicar as origens camponesas de nossa família, que seria descendente, assim, de um duque e “condestável”, como ela o designava, justificando nosso retorno à posse de terras, embora tão distantes daquela Alemanha medieval onde estava a origem de tudo. Nunca saberei se ela inventava aquilo, mas o detalhe da sodomia me impressionava sobremaneira e presumo que o grotesco daquela cena se devia a uma necessidade de minha avó de rebaixar tão alta linhagem, para tornar mais verossímil a sua estória. Ela queria dizer que, de qualquer maneira, éramos de linhagem espúria, pois nosso antepassado tinha sido gerado e parido “por trás”, como os criados e camponeses acreditavam.
De qualquer maneira, qualquer que tenha sido a verdadeira história das origens da nossa família, eu não podia deixar de admirar instintivamente o cunho folclórico de tudo aquilo, e sobretudo, a veia satírica de minha avó, seu amor do grotesco, que ela evidenciava entremeando sua narrativa com gargalhadas finas, cacarejantes, que mostravam seus poucos dentes na boca horrenda e murcha. Eu tinha certeza que estava diante de uma bruxa, mas permanecia fascinada.
Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquilo era possível, senão provável, pois o esperma de um homem corria longe, na sua procura do óvulo, e escorrendo sobre a vulva, a partir do orifício anal, poderia fecundar a mulher, e que isso ocorria mais freqüentemente, até hoje, do que as pessoas supunham. Na adolescência tive um período de medo de sentar-me na banca da privada, pois amiguinhas da escola me diziam que se podia engravidar, se um homem tivesse se sentado ali primeiro, sobretudo se o assento ainda estivesse quente. Tais superstições, todas com uma pequena base real, poderiam ter assombrado a minha infância e pré-adolescência, não fora a sabedoria de meu pai, que desvelava e explicava todos os fenômenos da natureza, sem roubar-lhes a poesia e mesmo a quota de mistério, subjacente a toda vida do homem sobre a terra.
Entretanto, apesar do caráter picaresco daquela estória, minha avó também queria embasar um pequeno mito corrente na família, e estendendo aquela sua mão ossuda, que parecia uma garra de pássaro, e tocando meus cabelos dourados, e minha face muito branca, disse, fechando a narrativa:
—Alma, tu és a prova da parte nobre da nossa linhagem, com tua aparência de princesa, assim como o Werner é a própria imagem do Condestável. Quanto a Solange e Lúcia, são a parte camponesa. O Rudolf, teu Rôdo? Bem, este é um caso à parte, que te contarei outro dia. Agora vai, vai princesinha, brincar no pequeno reino do teu jardim, que te coube, minha querida.
_________________________________



A avó Frida continuou a contar, durante um período, a pedido meu, as histórias do Condestável Gottfried e da sua pobre esposa inglesa Lady Margareth, que para o resto de seus dias foi possuída somente pelo fiofó, e a seco. É claro que com o tempo, ela também, somaticamente começou a secretar um fluido lubrificante, por ali, o que amenizou as coisas para a coitada. Minha avó ria tanto quanto eu com aquela estória, que desconfio que ela tinha inventado inteiramente, e começo a suspeitar que foi dela que herdei minha imaginação literária, e meu humor satírico, que não exploro muito, mas já denunciado por alguns.
Verdadeiro ou não, não importa, o mais incrível quanto àquela lady, foi ela ter tido muitos filhos, depois daquele primeiro entregue aos camponeses; e pelo fato de que as coisas não se repetem sempre da mesma maneira, a tal teoria do escorrimento de sêmen, não colava mais, o que nos faz deduzir que o responsável por aquelas inseminações continuava sendo o desconhecido amante de Milady, que não parecia nominalmente na estória e cuja identidade permanece um mistério. O fato é que o duque passou a ter uma fama de sodomizador emérito, a quem as mulheres, que tinham dificuldade de conceber, recorriam em peregrinação, vindas de longe, de outros castelos. Na tardou a começar a receber também camponesas, e por isso foi considerado muito caridoso e magnânimo, sendo que essas criaturas mais rudes freqüentemente eram trazidas pelos seus próprios maridos estéreis, e nessas ocasiões eram recebidas no celeiro do duque, sobre a palha, para que o cenário e o leito adequado as ajudasse a conceber.
Diante da minha divertida estupefação, afinal, de guria de doze anos, minha avó revelou o segredo daquilo. Tudo não passava de um truque do duque que amava aquela modalidade, a de Sodoma, e fazia parceria com o amante de sua mulher, já que ele mesmo era estéril. Com isso, as mulheres saíam coniventes com o truque, para poderem se vangloriar, depois, da estirpe nobre de seus rebentos, pois o cavaleiro anônimo era de fato plebeu, camponês mesmo, mas bonitão e de impressionante virilidade e fertilidade, possuindo uma ferramenta estupefaciente e abismal.
Louvado seja Deus que inspira no homem soluções para todos os problemas!


____________________________________


Lady Margareth estava já no seu quarto rebento, e continuava andando como pata choca, após os longos períodos de gravidez. O povo dizia que era pela continuada técnica de Sodoma, e que seus filhos todos seguiriam o manual. Mas a verdade é que, talvez por aquela razão, aquele era um ducado feliz, pois tal prática, de um jeito ou de outro aproximava o grão-senhor do seus súditos, embora por trás, coisa que não acontecia em nenhum outro feudo.
Então, após longo período de paz, em que a população do feudo cresceu graças ao Grande Sodomita, estourou afinal a guerra necessária, que deveria evitar a fome, com a supressão de expressiva parte da população jovem, e a reacomodação dos mais espertos, senão dos mais aptos. A batalha de Wolfsburg, também chamada a batalha dos lobos, pois esses foram os que mais lucraram, com o campo de vinte mil mortos e feridos, o Sodomizador-mór, como também era chamado, venceu seus inimigos e submeteu-os a todos à especialidade que o consagrara, o que motivou uma revolta para além dos seus domínios, que acabou por derrubá-lo politicamente, já que pelas armas o vencedor era ele. O rei da Prússia exigiu sua demissão como condestável, e que confinasse sua prática a intra-muros do seu castelo. E que fosse mais discreto, desistindo de instituí-la como tradição de seu feudo.
O duque e seu ducado iniciavam sua decadência. Gottfried começou a definhar, com o término da Era Feliz, que ele, paradoxalmente, iniciara com a suposta humilhação pública, ou de copa e cozinha, de sua mulher estrangeira, de ruiva cabeleira e penugem. E alvas nádegas.
Não sei, realmente, se esse episódio me foi também contado por minha avó Frida, ou se eu o inventei. De qualquer modo, tem tudo para ser verdadeiro.

__________________


As estórias do Condestável Gottfried cessaram. Mas elas tinham servido para me aproximar de minha avó, que eu agora não via mais como uma bruxa, mas como uma druidisa ou bardo de saias, que narrava as sagas picarescas do nosso passado germânico e celta, já que havia sangue inglês e irlandês, envolvidos nas nossas origens familiares. Não muito tempo depois disso, eu iria velar seu corpo no salão da estância, toda de preto no caixão, com seu grande nariz adunco, quase encontrando a ponta aguda do seu queixo proeminente, e sua boca sumida, sem lábios, enrugada, que completava o retrato de feiticeira que me impressionava tanto, e que eu, de certa forma, admirava. Seu longo cabelo branco (ela nunca fizera o coque usual das velhinhas), estava esparzido sobre os seus ombros esqueléticos e misturava-se às flores. Eu olhava fascinada, embora não vertesse uma lágrima, pois minha avó não me comovia, estranhamente, pois eu a associava ao sentido humorístico da vida, achando, mesmo, acreditem, que naquele momento, a melhor forma de homenageá-la seria contar uma anedota histórica ou folclórica, coroando o seu fecho com uma grande gargalhada coletiva. Esse pensamento, me fez sorrir ligeiramente, o que foi notado por minha mãe que me deu um ligeiro tapa no rosto. Eu nunca seria compreendida por minha mãe. Como poderia, afinal, eu, a esquisitinha alegre, a extravagante, ao seu ver, uma excêntrica precoce apesar de minha ingenuidade encantadora, deixar de ser incompreendida por aquela criatura convencional que... no entanto, me amava, isso sim, incompreensível? Diante daquele tapa, me comovi finalmente, mas comigo mesma, com minha solidão em relação à minha mãe, da qual arranquei um movimento de cabeça aprovativo às minhas primeiras lágrimas, adequadas, naquele velório da nossa bizarra matriarca, estranha... e querida, afinal.


_______________________________