Aqui estou eu, mais perplexo do que comovido, no velório da Poetisa. Sua beleza um tanto míope e levemente estrábica mantém-se intacta no caixão aberto, emoldurada pelas flores de sua paixão, enquanto, fascinada, acompanho os movimentos imperceptíveis de seu ventre que só por mim parecem apercebidos, nesta austera vigília de seus amigos, parentes e admiradores.
Ponho-me a divagar em pensamento, neste canto escuro da sala, sobre a permanente dicotomia entre carne e espírito presente em toda obra da minha sublime amiga, assim como em sua vida penosamente vivida na ardência de uma paixão avassaladora, que arrastava seu corpo atrás de si, como um trambolho, sim, como um trambolho, pesado e árduo, malgrado sua beleza imperfeita e frágil.
Passam agora o cafezinho, que aceito, vagamente receoso de que desperte meu ventre num dueto inesperado com minha amiga, como uma voz dissonante, indigna de seu timbre soberbo na vida, como na morte. Repasso os transes finais da grande artista, suas idiossincrasias persistentes até o final, a tirania de sua inteligência dominadora e trágica, que teimava em refletir-se em tudo ao redor de si como um espelho dos espelhos da multifacetada existência humana. Não podia deixar de lembrar-me de sua egomania grandiosa, avassaladora, tornada misteriosamente legítima pelo talento e clarividência de sua visão poética. Não posso também esquecer o progressivo aniquilamento da minha vontade, da minha personalidade inteira, mesma, junto a esta pequena diva, no convívio exasperante dos últimos anos. Uma certa volúpia de dissipação me tomava em sua presença, como um tributo final de minha admiração incondicional. Eu a amava, agora percebo, e as enormes dores que seu corpo teimava em clamar e reclamar, eram reproduzidas somaticamente no meu próprio corpo nos momentos de recolhimento ao meu próprio atelier.
Eu me tornara o amigo tardio, de seus últimos anos, quando uma certa decadência já se fazia notar, malgrado sua juventude e febre criativa. Ela já afugentava amigos, chocava seus parentes, com aquela súbita dissonância, certo despudor, certa vertigem para o patético, de uma existência que resvalava para o abismo escolhido de uma sensibilidade mórbida, que soava, entretanto, com o estranho timbre de modernidade nada ingênuo, fruto de sua culta sabedoria.
Retorno aos momentos de nosso primeiro encontro, quando a notícia em jornal de uma sua noite de autógrafos no lançamento de seu primeiro e único livro de poemas, me instigou a correr para a livraria a fim de conhecer a jovem deusa que eu via em foto ao lado de um insólito poema obscuro e intrigante, um tanto hermético, que me deixara terrivelmente inquieta.
Aproximei meu rosto do seu no momento do autógrafo, balbuciando cumprimentos, mas aurindo seu perfume de jovem mulher trintona e de dúbia beleza ... sim, porque detectei desde o primeiro momento o cunho sáfico de sua feminilidade.
Convidou-me na ocasião, para uma palestra ou seminário em que vi imediatamente a possibilidade de uma aproximação. Queria desde então fazer parte de sua vida, numa renúncia deliberada ao meu ego centrado, encarcerado, em que vislumbrava uma saída salvadora.
Decidi dedicar-me à minha nova amiga numa trégua a anos de refregas criativas como pintora e poeta. Eu haveria de emergir renovada e plena após este mergulho na Outra, a “Anima” escolhida num impulso de reconhecimento.
Ai de mim, vejo-me agora nesta sala anódina, mas cheia de familiares odores, murmúrios e poucas lágrimas. Percebo até mesmo um certo alívio tímido no ambiente e nas pessoas, para minha surpresa, pois não parecem notar nem sequer o corpo branco, lívido, de minha amiga, inerte aos seus olhos, mas estranhamente vivo para mim na sua constrangedora ventosidade.
Recordo nossa intimidade última quando consentiu, ou melhor, exigiu que a invadisse no seu leito de doente na atmosfera abafada e fétida de seu quarto de janelas fechadas. Trêmula e comovida, penetrei com meus dedos sua carne gasosa, murmurante, com estrépitos súbitos, intimidantes. Sua estranha virgindade fez-se visível, num momento, logo dissipado, enquanto eu me sentia boiar no pântano de seu ventre entumecido e branco, branco, como um pérfido nenúfar.
Agora era chamada intermitentemente ao seu leito para que a aliviasse de seus gases que ameaçavam explodi-la literalmente em dores e sufocação. Eu me predispunha, confesso, sempre pronta a satisfazê-la . Estranha volúpia de sons e odores que pareciam proibidos, por isso mais verdadeiros e íntimos que a própria vida que se esvaía daquele jovem corpo martirizado por uma mente implacável que buscava insistentimente volatilizá-lo.
Eu sabia que era usado como um instrumento útil, hábil, pela sua carne exigente. Seu verdadeiro amor a traíra, fugira horrorizada pela desconcertante gaseificação do objeto de seu desejo. Uma jovem, bela e inodora. Recuara, acuada ante o rumo tomado pela estranha paixão sem nome do seu amor incoercível. A pedido de minha deusa tentei em vão traze-la de volta. Consegui um frustrado encontro no quarto intoxicado e escuro em que, ao contrário do meu crescente amor e desejo, a jovem esvaziada e inerte revelou-se impotente diante de sua própria repulsa. Entretanto, desnudou-se pela última vez diante dos olhos de minha amada e deixou-se penetrar por mim, a seu pedido, a seus pés, diante da cama. Depois, sem uma palavra, recolheu suas vestes, e com elas nas mãos e ainda nua deixou o quarto para sempre. Então, a sombra voltou a reinar para a minha amiga, entre soluços, abafados sons, imperceptíveis gritos de sua carne, que protestava.
Cem noites ainda transcorreram. Cem noites deitei-me sobre ela e penetrei-a, desobstruindo todas as suas rotas de fuga. Até que ela finalmente nos deixou, num profundo suspiro subterrâneo.
Agora, encontro-me só, terrivelmente só, nesta sala lotada. Mas, penetrado de seus odores, sou único e vivo como ninguém mais, e o meu segredo será carregado para longe de todos eles, traidores insensíveis, quando me afastar do fedorento santuário de meu amor inalcansável. Nada sabem eles do incompreensível sonho, de nossa terrível cumplicidade final, quando ousei compartilhar de seu delírio e pude fazer parte de corpo presente, de sua deliqüescente e volátil poesia...
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Nota
Este conto é uma das poucas obras em que a autora não se coloca como narradora e protagonista, aqui no caso se colocando como um homem maduro obsecado por sua musa, que acaba de falecer e da qual ele está presente no estranho velório. A narrativa, propositalmente melodramática e um tanto patética, revela, no seu intencional exagero, um sutil humor negro. Não pude deixar de perceber que a Alma auto-ironicamente se projetou, isso sim, na figura da pobre poetisa desvairada que morre cheia de gazes. (Lucia Welt)
sábado, 15 de novembro de 2008
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